Por Que Comparar Dói Tanto - E O Que as Redes Fazem Com Isso

 

Por Que Comparar Dói Tanto - E O Que as Redes Fazem Com Isso

Por Gabriel Matos | Mente em Evidência


Você abre o Instagram por reflexo, sem intenção particular. Trinta segundos depois, algo mudou. Não foi nenhuma notícia grave, nenhum conflito. Foi a foto de uma pessoa que você mal conhece numa viagem que você nunca fez, ou o anúncio de uma promoção de alguém da sua área, ou simplesmente o feed de alguém que parece ter resolvido exatamente o que você ainda não resolveu. O aplicativo está fechado, mas a sensação fica.

Você sabe, racionalmente, que aquilo é uma seleção. Que ninguém posta os dias ruins, as dúvidas, os momentos em que acordou sem saber para onde ir. Você sabe tudo isso. E mesmo assim dói.

O motivo pelo qual o conhecimento racional não resolve o desconforto da comparação é um dos fenômenos mais bem documentados da psicologia contemporânea. E entendê-lo muda a forma como você se relaciona com o que sente ao olhar para a vida dos outros.


O que a pesquisa mostra

Pesquisadores da Universidade de Bath, no Reino Unido, conduziram em 2023 um estudo que ficou amplamente citado: adolescentes e jovens adultos que ficaram uma semana sem acessar o Instagram reportaram melhora significativa nos índices de bem-estar, autoestima e satisfação com a própria aparência em comparação com o grupo que manteve o uso normal da plataforma. O efeito foi mais pronunciado entre participantes que já apresentavam níveis elevados de comparação social.

O dado isolado não surpreende muita gente. O que surpreende é o mecanismo por trás dele: não é apenas o tempo de tela que produz o impacto negativo. É o tipo específico de processamento mental que a exposição ao feed ativa.

No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE, 2019) já apontavam que cerca de 10,2% dos adultos brasileiros apresentavam sintomas de depressão, com as faixas entre 18 e 29 anos entre as mais afetadas. Estudos subsequentes de monitoramento pós-pandemia indicam aumento nos índices de ansiedade e baixa autoestima, especialmente entre jovens com uso intenso de redes sociais. A comparação social não é a causa única, mas é um fator amplificador consistente.


A comparação como função, não como falha

Antes de qualquer coisa, é necessário desfazer uma confusão comum: comparar-se com os outros não é um problema de caráter nem um sinal de imaturidade. É uma função cognitiva básica.

O psicólogo Leon Festinger descreveu em 1954 a teoria da comparação social: os seres humanos avaliam suas próprias opiniões e capacidades em parte comparando-as com as de outras pessoas. Esse mecanismo tem utilidade real. Serve para calibrar o próprio desempenho, identificar modelos, ajustar expectativas. O problema não é comparar. É o tipo de comparação que as redes sociais sistematicamente produzem.

Festinger identificou dois tipos principais: a comparação ascendente, com quem parece estar "acima" em alguma dimensão, e a comparação descendente, com quem parece estar "abaixo". Plataformas como Instagram foram projetadas, pelos seus próprios mecanismos de engajamento, para maximizar a exposição a conteúdo de alta performance, de alta atratividade, de alta conquista. O feed raramente mostra o ordinário. Mostra o excepcional filtrado, editado e enquadrado para parecer alcançável.

O resultado é uma dieta quase exclusiva de comparação ascendente, que o psicólogo Sherry Turkle, do MIT, descreveu como "exposição contínua ao melhor momento público de todo mundo ao mesmo tempo."


Quando o problema não é a comparação, mas a fusão

A Terapia de Aceitação e Compromisso oferece um refinamento importante nessa análise. O que transforma a comparação de um processo informativo para um processo doloroso é a fusão cognitiva: o estado em que um pensamento deixa de ser um pensamento e passa a ser um fato sobre a realidade.

No Artigo 3 desta série, exploramos como a fusão cognitiva funciona em geral. Aqui ela assume uma forma específica: a fusão com o self idealizado. Não é apenas "aquela pessoa está bem de vida" que dói. É "aquela pessoa está bem de vida, o que significa que eu estou ficando para trás, o que significa que minhas escolhas foram erradas, o que significa que sou menos do que deveria ser."

A cadeia não é lógica. Mas é automática. E quando se está fundido a ela, ela soa como descrição objetiva da realidade.

Tiago Ferreira, em Construindo Flexibilidade Psicológica (2023), descreve o mecanismo com precisão: "Nós brigamos internamente, mas a explosão resultante da luta mental é descarregada em quem está fora." A raiva, a tristeza ou a ansiedade que surgem após a rolagem do feed raramente são direcionadas à plataforma. São direcionadas contra o próprio sujeito, na forma de autocrítica, ou contra as pessoas ao redor, na forma de irritabilidade.

A comparação começa como observação. A fusão transforma a observação em veredicto.


O self idealizado como personagem interno

Há um aspecto desse processo que merece atenção específica: a comparação nas redes sociais é frequentemente menos com pessoas reais do que com uma versão idealizada de si mesmo que o feed vai construindo ao longo do tempo.

A pessoa que aparece no story não é um desconhecido qualquer. É o espelho de quem você "deveria" estar sendo segundo o roteiro implícito que você absorveu: o peso que deveria ter, o nível profissional que deveria ter alcançado, o relacionamento que deveria parecer, as viagens que deveriam estar acontecendo. Cada post funciona como evidência acumulada de que você está atrasado em relação a uma versão de si mesmo que nunca existiu, mas que a lógica das redes faz parecer inevitável.

Louise Hayes e Joseph Ciarrochi, em O Que Te Torna Mais Forte (2023), propõem uma distinção útil: construir a vida com base em valores é fundamentalmente diferente de construí-la com base em uma "forma idealizada de como as coisas devem ser." A segunda estrutura é frágil por definição. Qualquer evidência de que a realidade diverge do ideal se torna uma ameaça à identidade inteira.

O self idealizado não é uma aspiração. É uma armadilha. Porque quanto mais se avança, mais o alvo se move.


Por que saber disso não resolve

Existe uma frustração legítima que muitas pessoas trazem para a terapia: "Já sei que me comparo o tempo todo. Já sei que é irracional. E ainda continuo sentindo."

Esse impasse tem explicação direta na ACT. O problema não é a falta de conhecimento sobre o mecanismo. É que a estratégia padrão que as pessoas usam, tentar convencer-se de que a comparação é irracional para parar de senti-la, é precisamente o que mantém o ciclo ativo.

Ferreira é direto sobre isso: "as melhores justificativas para não viver são as verdadeiras, e não as falsas." O mesmo vale para a comparação. Quanto mais se argumenta internamente contra o pensamento comparativo, mais energia psicológica ele consome. A mente não para de comparar porque você encontrou um contra-argumento. Ela para, temporariamente, quando o pensamento é notado sem que se tente erradicá-lo.

Desfusão cognitiva não é deixar de ter o pensamento. É mudar a relação com ele: de fusão total, em que o pensamento é um fato sobre quem você é, para perspectiva de observador, em que o pensamento é um evento mental que apareceu, que pode ser reconhecido e que não precisa ditar o próximo comportamento.

A diferença prática é considerável. Com fusão: "sou menos do que deveria ser" fecha possibilidades. Com desfusão: "minha cabeça está contando uma história de que sou menos do que deveria ser" abre espaço para a pergunta seguinte: "e o que eu quero fazer agora?"


O que as redes fazem que o mundo off-line faz menos

Há uma diferença estrutural entre a comparação que acontece naturalmente na vida cotidiana e a que acontece nas redes. Na vida fora das telas, a comparação é contextualizada: você vê a pessoa no dia ruim também, no conflito também, na incerteza também. A comparação é bilateral e mais próxima da realidade.

Nas redes, o mecanismo é diferente por design. O algoritmo aprende com o que gera engajamento, e o conteúdo aspiracional gera mais engajamento do que o conteúdo ordinário. Isso significa que o feed não é uma amostra representativa das vidas das pessoas. É uma curadoria sistemática do que parece mais desejável.

O psicólogo Jean Twenge, que pesquisa comportamento geracional nos EUA, identificou correlação entre o aumento do uso de smartphones e redes sociais e o aumento dos índices de solidão, ansiedade e depressão especialmente entre jovens de 14 a 24 anos. O mecanismo mediador, em grande parte, é a comparação social continuamente ativada.

Isso não é argumento para abandonar as redes. É argumento para usar as redes com consciência do que elas fazem com a atenção.


O que é possível fazer

Três perguntas têm valor prático quando a comparação começa a produzir desconforto:

A primeira: "com quem ou com o quê estou me comparando de fato?" Frequentemente, a comparação não é com a pessoa real no post. É com um ideal interno que aquela pessoa ativou. Nomear isso com precisão já interrompe parte do ciclo automático.

A segunda: "esta comparação está me informando sobre algo que quero mudar, ou está me punindo por não ser diferente do que sou?" Há comparações produtivas: elas apontam para direções e ativam o movimento. Há comparações punitivas: elas apenas subtraem energia sem oferecer direção. A distinção importa.

A terceira: "o que eu valorizo de fato, independentemente do que esse feed sugere que eu deveria valorizar?" Essa pergunta não tem resposta rápida. Mas o ato de fazê-la interrompe a lógica implícita do feed, a de que as métricas visíveis nas redes são as métricas que determinam o valor de uma vida.


O que este artigo pode e não pode fazer

Quando a comparação social produz sofrimento persistente, afeta a autoestima de forma duradoura ou alimenta ciclos de ansiedade que já estão consolidados, o conhecimento teórico sobre o mecanismo não é suficiente para revertê-los. Esse é o território da psicoterapia.

Não porque você não seja capaz de compreender o processo. Mas porque mudar a relação com os próprios pensamentos é um trabalho que se aprofunda numa relação terapêutica, com tempo e com a presença de alguém treinado para isso.

Se você se reconheceu nos padrões descritos aqui e percebe que eles limitam sua vida de forma significativa, esse reconhecimento já é um ponto de partida válido para buscar apoio.


Para continuar lendo nesta série

No Artigo 3, exploramos a fusão cognitiva como mecanismo geral. No Artigo 5, vimos como o self conceitualizado se forma e opera. No próximo artigo, vamos investigar por que fazer amizades na vida adulta ficou tão difícil e o que a evitação relacional tem a ver com a epidemia de solidão.


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Referências

FERREIRA, Tiago. Construindo Flexibilidade Psicológica: o método das narrativas funcionais. São Paulo: NDD Media, 2023.

HAYES, Louise L.; CIARROCHI, Joseph. O Que Te Torna Mais Forte: como prosperar diante das mudanças e incertezas usando a Terapia de Aceitação e Compromisso. Porto Alegre: Artmed, 2023.

FESTINGER, Leon. A theory of social comparison processes. Human Relations, v. 7, n. 2, p. 117-140, 1954.

TWENGE, Jean M. iGen: Why Today's Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy — and Completely Unprepared for Adulthood. Nova York: Atria Books, 2017.

TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Nova York: Basic Books, 2011.

UNIVERSITY OF BATH. Taking a one-week break from Instagram improves wellbeing. Bath News, fev. 2023. Disponível em: www.bath.ac.uk.

IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: atenção primária à saúde e informações antropométricas. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.

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