O Problema Com a Positividade Tóxica
O Problema Com a Positividade Tóxica
Por Gabriel Matos | Mente em Evidência
Arthur Fleck tem uma condição neurológica que o faz rir quando está com dor.
Não é que ele finge estar bem. Não é que escolhe sorrir para camuflar o que sente. É que seu sistema nervoso produz a resposta errada para o estímulo errado, independentemente do que ele queira. Ele chora por dentro e ri por fora, e não tem controle sobre o descasamento. O filme Coringa (2019) constrói toda a sua tragédia sobre esse ponto: a distância entre o que Arthur sente e o que o mundo vê, e o custo acumulado de viver dentro dessa distância sem que ninguém perceba o que está acontecendo dentro.
A maioria das pessoas não tem uma condição neurológica. Mas muitas aprenderam a fazer uma versão funcional do mesmo processo.
"Fica positivo." "Tudo vai dar certo." "Pelo menos você tem saúde." "Força, guerreiro." "Não adianta ficar pensando nisso." "Gratidão, que a vida é boa." Essas frases circulam em grupos de família, em reuniões de equipe, nos comentários das redes sociais, nos conselhos de amigos bem-intencionados. Elas têm em comum uma premissa que raramente é examinada: que sentimentos difíceis são um problema a ser corrigido, que a pessoa que os expressa está fazendo algo errado ao não estar bem, e que a resposta adequada é redirecionar o estado emocional para algo mais aceitável.
Positividade tóxica não é animação genuína. É a pressão social e interna para que a expressão emocional se encaixe num repertório aprovado, independentemente do que está de fato acontecendo. É o ambiente de trabalho onde "reclamar" é sinal de falta de profissionalismo. É a família onde "não vamos ficar com energia negativa". É o relacionamento onde demonstrar insegurança é tratado como fraqueza ou manipulação. É o consultório médico onde o paciente chega sorrindo e o médico não pergunta o que está por baixo.
E é um problema psicológico bem documentado, com consequências que vão muito além do desconforto imediato.
Hayes, Strosahl e Wilson descrevem o processo que está na base da positividade tóxica com um grau de detalhe que raramente aparece nas conversas públicas sobre o tema. O aprendizado de que emoções negativas devem ser controladas começa cedo. É dito às crianças, desde muito antes de terem vocabulário para questionar isso, que elas podem e devem controlar estados afetivos negativos. Bebês são avaliados pela intensidade com que expressam estados aversivos: "ela é um bom bebê, não chora nunca". Crianças maiores aprendem pela punição e pelo reforço social: "pare de chorar ou vou lhe dar motivo para chorar", "não seja um bebê chorão", "não dê bola para isso".
O resultado não é uma criança emocionalmente equilibrada. É uma criança que aprendeu a esconder, não a regular. Que aprendeu que a aprovação dos outros depende de exibir o estado emocional correto, não de estar genuinamente bem. Que aprendeu que sentir o que não deveria sentir é um defeito de caráter.
Ferreira observa o custo cultural desse aprendizado com uma precisão que vale citar diretamente. As novas narrativas culturais, em contraste com as gerações anteriores, não comportam marcas ou cicatrizes, apenas o sucesso decorrente da autorrealização e do bem-estar perenes. Uma geração que acredita que nasceu com o patrimônio da felicidade, nas palavras da jornalista Eliane Brum que ele evoca, não foi ensinada a criar a partir da dor. Ela foi ensinada a eliminar a dor. E como a dor não some por decreto, o que resta é a performance da ausência dela.
Há um paradoxo que a pesquisa psicológica documentou com consistência e que vale entender com clareza. Quando você tenta suprimir um pensamento ou emoção, ele tende a aparecer com mais frequência e mais intensidade do que aparecia antes da tentativa de supressão.
O mecanismo foi descrito por Wenzlaff e Wegner e é citado extensivamente por Hayes e colaboradores. A supressão aumenta a saliência do que está sendo suprimido. As próprias regras de supressão fazem referência ao item a ser evitado: "não fique ansioso" contém a palavra ansioso, e o processo de monitoramento necessário para verificar se a supressão está funcionando aciona exatamente o estado que se tentava evitar. É o equivalente psicológico de ser instruído a não pensar em ursos polares: o pensamento sobre ursos polares aparece imediatamente e com força.
Há ainda uma segunda consequência que agrava o quadro. A vigilância constante necessária para monitorar os próprios estados internos, verificar se estão dentro do aceitável e corrigir os que não estão, consome recursos cognitivos e atencionais significativos. A pessoa que passa o dia gerenciando o que sente gasta energia que não estava disponível para nenhuma outra coisa. Chega ao fim do dia exausta sem saber ao certo do quê. A supressão não é gratuita: ela tem um custo de processamento que se acumula silenciosamente.
Isso tem uma consequência direta para a positividade tóxica. A pessoa que é repetidamente instruída a "ficar positiva" não aprende a estar bem. Aprende a monitorar seus estados internos em busca de sinais de que não está bem o suficiente, a suprimir o que aparece de errado, e a viver num ciclo de vigilância e supressão que é, em si mesmo, uma fonte significativa de sofrimento. O problema com "fica positivo" é que ele produz o oposto do que promete.
No cotidiano brasileiro, a positividade tóxica tem sabores culturais específicos que merecem atenção.
Existe uma variante religiosa, muito presente em famílias evangélicas e católicas, onde expressar sofrimento é enquadrado como falta de fé ou ingratidão a Deus. A pessoa que está deprimida deveria orar mais. Quem está ansioso não confia o suficiente. O sofrimento legítimo é convertido em evidência de uma deficiência espiritual, o que adiciona vergonha e isolamento ao que já era difícil.
Existe uma variante masculina, especialmente pronunciada em contextos de trabalho e família, onde homens aprendem que a única emoção socialmente aceitável é a raiva ou a indiferença. Tristeza, medo, insegurança: todos traduzidos em silêncio, em ironia, em distância. A taxa de suicídio masculina no Brasil, consistentemente mais alta do que a feminina, não está desvinculada desse padrão de supressão.
E existe uma variante de redes sociais que opera num registro mais difuso mas igualmente custoso: a curadoria permanente de uma versão da vida que parece sempre bem, sempre em crescimento, sempre com propósito. Não porque a pessoa esteja mentindo conscientemente, mas porque o ambiente pune os registros autênticos de dificuldade e recompensa os de superação. O resultado é uma vida interna que cada vez menos corresponde à vida pública, e uma sensação crescente de solidão dentro da própria visibilidade.
A proposta da ACT para esse padrão não é o oposto da positividade tóxica, que seria uma espécie de negatividade tóxica, a ideia de que sofrimento é mais autêntico ou que bem-estar é suspeito. A proposta é mais precisa: emoções não são estados a ser gerenciados, mas informações a ser ouvidas.
Ferreira define aceitação como o acolhimento das emoções sem evitação ou apego desvinculados de valores. A palavra central é acolhimento: não concordância, não aprovação, não celebração do sofrimento. Mas a disposição de deixar que o que está presente seja presente, sem imediatamente tentar apagá-lo ou convertê-lo em outra coisa.
Hayes e colaboradores distinguem o objetivo de sentir-se bem, que é um estado, do objetivo de sentir bem, que é uma capacidade. Uma pessoa psicologicamente saudável não é aquela que sente apenas o que é agradável. É aquela que tem acesso ao que está de fato acontecendo internamente, que pode nomear isso com precisão, e que pode agir a partir das informações que as emoções carregam, incluindo as difíceis, sem ser governada por elas nem precisar suprimi-las.
Arthur Fleck não quer rir quando está com dor. Mas o sistema em que vive não tem espaço para ele chorar. Cada vez que alguém ignora o cartão que ele carrega explicando sua condição, cada vez que a resposta ao seu riso é desconforto ou chacota em vez de curiosidade, algo se consolida: não há lugar para o que ele realmente sente.
A tragédia do Coringa não é uma questão de saúde mental individual. É uma questão de o que acontece quando uma pessoa passa a vida inteira sendo forçada a exibir uma emoção que não tem, enquanto a emoção que tem não encontra nenhuma passagem.
Isso é o que a positividade tóxica faz, em doses menores e mais distribuídas, com muitas pessoas que nunca chegarão a uma crise. Ela não destrói. Ela restringe, aos poucos, o espaço disponível para ser o que se é.
O que este artigo pode e não pode fazer
Este texto nomeia um padrão cultural e psicológico: a pressão para suprimir emoções difíceis tem custo documentado, e o custo é maior do que o desconforto que a supressão tenta evitar.
O que ele não pode fazer é indicar como trabalhar com isso individualmente. Padrões de supressão emocional aprendidos ao longo de anos, especialmente quando reforçados por contextos familiares, religiosos ou profissionais, mudam com consistência, não com intenção isolada. Se você reconheceu algo neste texto, especialmente se a dificuldade de expressar o que sente afeta relações importantes, isso pode ser um ponto de entrada útil para um processo terapêutico.
Uma última observação que vale registrar: reconhecer a positividade tóxica num contexto não é uma licença para inundar qualquer espaço com qualquer emoção sem consideração pelo outro. A expressão emocional tem contexto, e discernir quando e com quem compartilhar o que se sente é uma habilidade relacional legítima. O problema não é o filtro. É quando o filtro se torna total, quando nenhum contexto é seguro o suficiente para ser real, e a performance de estar bem se torna o único modo de existir em relação.
Uma pergunta para levar: qual emoção você mais frequentemente converte em outra coisa antes de permitir que ela seja vista?
Este artigo integra a série Mente em Evidência sobre Flexibilidade Psicológica. Leia também: Por Que Você Se Sente Vazio Mesmo Quando Tudo Está Bem (artigo 21) e O Que a Ansiedade Está Tentando Te Dizer (artigo 17).
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Referências
FERREIRA, T. Construindo Flexibilidade Psicológica: o método das narrativas funcionais. São Paulo: NDD Media, 2023.
HAYES, S. C.; STROSAHL, K.; WILSON, K. G. Terapia de Aceitação e Compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.
WENZLAFF, R. M.; WEGNER, D. M. Thought suppression. Annual Review of Psychology, v. 51, p. 59–91, 2000.

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