O Que a Ansiedade Está Tentando Te Dizer

 

O Que a Ansiedade Está Tentando Te Dizer


Por Gabriel Matos | Mente em Evidência

Wanda Maximoff perdeu tudo. O irmão Pietro. O parceiro Vision. A possibilidade de uma família. Então ela fez o que qualquer mente humana tentaria fazer diante de uma dor grande demais: criou outra realidade.

Em WandaVision, série da Marvel, a heroína mais poderosa dos Vingadores usa seus poderes para construir um mundo alternativo. Uma cidade inteira dobrada à sua vontade. Um marido que voltou à vida. Filhos que nunca existiram. Uma vida de sitcom dos anos 1950 onde tudo termina bem no final de cada episódio. Wanda não precisava sentir mais nada. Ela construiu uma realidade onde a dor não tinha mais endereço.

Você provavelmente não tem poderes da Feiticeira Escarlate. Mas talvez já tenha feito algo parecido.


Pense na última vez que você sentiu ansiedade de verdade. Não aquela ansiedade corriqueira de domingo à tarde, mas aquela que aperta o peito no meio da reunião, que acelera o coração antes de uma conversa difícil, que te faz acordar às três da manhã pensando em algo que você não consegue nomear. O que você fez?

O brasileiro tem um repertório sofisticado de respostas para isso. Você abre o Instagram antes de levantar da cama. Você vai comer algo. Você começa a responder mensagens no WhatsApp que não precisavam ser respondidas naquele momento. Você "distrai a cabeça" com mais trabalho, com mais compromisso, com mais barulho. Ou talvez você seja do time que vai para a academia às 23h, não porque ama o exercício, mas porque o cansaço físico é o único sedativo que funciona.

Todos esses movimentos têm um nome técnico dentro da Terapia de Aceitação e Compromisso: evitação experiencial. É a tentativa sistemática de não sentir o que está sendo sentido.

O problema não é que você tente se distrair ocasionalmente. O problema é o que essa estratégia custa, e o que ela impede que você ouça.


A ansiedade virou inimiga pública número um da saúde mental contemporânea. Os aplicativos prometem eliminá-la. Os influencers vendem rotinas matinais para "vencê-la". O senso comum diz que uma pessoa equilibrada é uma pessoa que não a sente, ou que a controla antes que ela apareça. Esse é o pano de fundo cultural em que você aprendeu a interpretar o que a ansiedade significa.

Acontece que esse pano de fundo está errado.

A ACT parte de uma premissa que vai na contramão do que a maioria das pessoas espera de uma psicoterapia: o objetivo de uma vida saudável não é sentir-se bem, mas sentir bem. Hayes, Strosahl e Wilson, em Terapia de Aceitação e Compromisso, colocam com precisão que "é psicologicamente saudável ter pensamentos e sentimentos desagradáveis, além dos prazerosos". Não como tolerância resignada. Como acesso à totalidade da experiência humana.

Quando a ansiedade é tratada como inimiga a ser eliminada, algo paradoxal acontece. A luta contra ela ocupa todo o espaço mental disponível. Você fica tão ocupado gerenciando o que sente que perde completamente o que o sentimento estava tentando comunicar. A Feiticeira Escarlate construiu Westview para não sentir. E o preço foi que, enquanto administrava sua ilusão, ela era incapaz de processar a dor real, de entender o que havia perdido, de escolher qualquer coisa de verdade.


A isso se soma um dado cultural importante. O Brasil tem uma relação particular com a ansiedade. Por um lado, o país ocupa posições de destaque nos rankings de transtornos ansiosos no mundo, com pesquisas da OMS apontando o Brasil entre os países com maior prevalência de ansiedade na população. Por outro lado, a cultura ainda carrega camadas de estoicismo aprendido. "Engole o choro." "Não vai com essa fraqueza não." "Isso é coisa da sua cabeça." Essas frases não aparecem por acaso. São estratégias transmitidas de geração em geração para lidar com emoções que pareciam grandes demais ou que não tinham espaço para ser sentidas.

O resultado é uma combinação improvável: muita ansiedade acumulada e muito pouco exercício de ouvi-la. A evitação não é uma escolha deliberada. É um aprendizado cultural tão incorporado que parece senso comum.

Tiago Ferreira, em Construindo Flexibilidade Psicológica, narra com honestidade sua própria experiência com ansiedade ao mudar do Brasil para o Canadá para fazer um mestrado. Professor universitário reconhecido em Salvador, ele chegou ao novo país destituído de tudo que confirmava sua identidade: o idioma, o status, a rede de relações, a capacidade de argumentar fluentemente. A ansiedade explodiu.

Ele conta como começou a evitá-la: cozinhava para não estudar, cochilava para não sentir a culpa, tomava analgésicos para as dores de cabeça que se tornaram quase diárias. Estava fazendo, com toda a sofisticação de um psicólogo especializado em ACT, exatamente o que seus pacientes faziam. Até que percebeu o que a ansiedade estava tentando lhe dizer.

Ferreira descreve que respeitar as emoções envolve ouvir o que elas têm a dizer sobre três coisas: a vida, o corpo e os valores.

A ansiedade falava sobre sua vida: ele havia chegado em um país novo, com um idioma novo, com um curso que incluía Grego ministrado em inglês, e ainda assim tentava manter o ritmo de atividades de antes. A emoção sinalizava uma sobrecarga real. Não era fraqueza. Era informação sobre o quanto o contexto exigia.

Ela também falava sobre o corpo: o clima seco do Canadá produzia sangramentos, o frio o deixava sedentário, o sono estava desregulado. Enquanto brigava com a ansiedade, ele não ouvia o que o corpo pedia.

E falava sobre os valores: a vergonha e a ansiedade mostravam o quanto ele estava longe de viver, naquele momento, o valor central que organizava sua vida, que era fazer diferença nas pessoas a partir do que havia estudado. Mas também revelavam valores que havia esquecido: contemplação, descoberta, ser cuidado.

"Obrigado, ansiedade e vergonha", ele escreve, "por me lembrarem que um valor monolítico dificilmente sustenta uma vida com Flexibilidade Psicológica."


Isso tem uma implicação concreta para o dia a dia brasileiro.

Quando você sente ansiedade antes de uma conversa difícil com alguém próximo, ela pode estar comunicando que aquela relação importa para você. Quando você sente ansiedade no domingo à tarde pensando na semana, ela pode estar dizendo que você está trabalhando em algo que não está alinhado com o que considera relevante. Quando você sente ansiedade ao cogitar uma mudança, ela pode ser a sombra do quanto aquela mudança tem peso real para você.

Hayes e colaboradores apontam que "as áreas em que podemos ser mais magoados são justamente aquelas áreas com as quais nos importamos mais profundamente". A ansiedade, nessa leitura, não é um defeito de funcionamento. É um indicador de que algo com valor está em jogo.

Isso não significa que toda ansiedade seja útil ou que você deva se render a ela. Significa que tratá-la como inimiga impede que você entenda o que ela está apontando. Ferreira resume com precisão: "enquanto eu fugia da ansiedade e da vergonha, eu não conseguia ouvir o que meus sentimentos e sensações diziam sobre a minha vida, o meu corpo e os meus valores".


Aceitação, dentro da ACT, não é passividade. Essa é a confusão mais comum que aparece quando se fala no tema.

Aceitar a ansiedade não é dizer "está tudo bem" quando não está. Não é tolerar em silêncio. Não é praticar gratidão forçada ou respirar fundo e fingir que o aperto no peito não existe. Ferreira define com clareza: "aceitação envolve o acolhimento das emoções sem evitação ou apego desvinculados de valores".

A metáfora que ele usa é de Amyr Klink atravessando o Atlântico a remo: não se trata de desafiar o oceano, mas de "conviver com os caprichos do mar e deles saber tirar proveito", de "transformar o medo em respeito, o respeito em confiança". Ninguém atravessa o oceano negando que as ondas existem.

Aceitar a ansiedade é criar condições para ouvi-la. Para perguntar: o que ela está comunicando sobre minha vida, meu corpo, meus valores? A partir daí, é possível fazer escolhas. Não porque a ansiedade desapareceu, mas apesar de ela estar presente.

Essa distinção é fundamental: você não precisa esperar que a ansiedade vá embora para começar a viver o que importa. Ferreira é direto ao dizer que "aceitar a presença das emoções difíceis é o único modo de recusar ser governado pelas emoções difíceis". A Wanda que constrói Westview não está aceitando a dor. Está sendo governada por ela, só que numa versão camuflada de controle.


Existe uma cena no penúltimo episódio de WandaVision em que a ilusão começa a rachar. Os moradores da cidade fictícia aparecem como estão de verdade: sofrendo, aprisionados, pedindo para ser libertados. Wanda percebe, pela primeira vez, o custo do que construiu.

A ansiedade que você evita não desaparece quando você abre o Instagram. Ela fica no fundo, mais alta do que antes, esperando que o barulho acabe. O que racha não é a ansiedade. É a ilusão de que era possível não senti-la sem pagar nada por isso.


O que este artigo pode e não pode fazer

Este texto apresenta um conceito clínico: o de que emoções, incluindo a ansiedade, carregam informação funcional sobre vida, corpo e valores, e que a evitação sistemática dessas emoções cobra um custo real na capacidade de agir a partir do que importa.

O que ele não pode fazer é substituir o processo terapêutico. Identificar o que sua ansiedade está comunicando não é uma tarefa simples. Emoções que se tornaram crônicas, padrões de evitação que se instalaram ao longo de anos, sintomas que interferem significativamente na vida cotidiana: esses são territórios que pedem acompanhamento profissional.

Se você reconheceu algo de si mesmo neste texto, uma próxima pergunta honesta pode ser: o que minha ansiedade tem tentado me dizer que eu ainda não parei para ouvir?


Este artigo integra a série Mente em Evidência sobre Flexibilidade Psicológica. Leia também: Por Que Você Sabe o Que Fazer e Não Faz (artigo 2, sobre evitação experiencial) e O Que São Valores Psicológicos (artigo 7).


QUER CONVERSAR? 
Se você tem dúvidas sobre psicoterapia, gostaria de entender melhor como funciona ou está considerando iniciar um processo terapêutico ou se quer entender melhor como seus padrões de pensamento estão afetando sua vida e aprender ferramentas para desenvolver mais flexibilidade psicológica? Entre em contato.

📧 E-mail: psi.gabrielmatos@gmail.com 
📸 Instagram:@gabriel_matos_ribeiro
📚 Currículo Lattes: Acesse aqui
💬 Deixe um comentário: Ficou com alguma dúvida? Compartilhe!

Referências

FERREIRA, T. Construindo Flexibilidade Psicológica: o método das narrativas funcionais. São Paulo: NDD Media, 2023.

HAYES, S. C.; STROSAHL, K.; WILSON, K. G. Terapia de Aceitação e Compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

KLINK, A. Cem Dias Entre Céu e Mar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que é Psicoterapia? Guia Completo Baseado em Ciência

O Cérebro Pode Mudar?

Bem-vindo ao Mente em Evidência: Psicologia Baseada em Ciência