O Que Significa Viver no Presente Quando o Presente É Difícil

 

O Que Significa Viver no Presente Quando o Presente É Difícil

Por Gabriel Matos | Mente em Evidência

Tem um momento em algumas adaptações do Batman que vale mais do que a maioria das cenas de ação: aquele em que Bruce Wayne para.

Não para de ser o Batman. Para de usar o Batman como razão para não ser Bruce Wayne. Para de preencher cada hora disponível com missão, treinamento, investigação, qualquer coisa que impeça o silêncio onde a dor dos pais poderia aparecer. É o momento em que ele, mesmo que brevemente, escolhe estar no presente que tem, em vez de habitar o passado que perdeu.

É uma virada discreta. Não tem explosão, não tem chuva de meteoritos. Tem alguém decidindo que a vida que está disponível agora merece presença, mesmo que essa vida carregue uma perda que nunca vai desaparecer completamente.

Esse artigo fecha um bloco inteiro que girou em torno de uma única pergunta: o que acontece com você quando o presente é difícil?


Ao longo dos oito artigos deste bloco, esse tema apareceu em formas diferentes.

Apareceu no corpo que fala antes da mente ter chance de processar, na tensão que sobe no ombro antes de você saber por que está com raiva. Apareceu na mente que não consegue sair do passado que revisita ou do futuro que simula, girando no mesmo eixo sem produzir saída nova. Apareceu no mindfulness que virou produto de bem-estar, vendido como relaxamento, quando a proposta real exige o oposto: a coragem de estar com o que está presente, especialmente quando o que está presente é incômodo.

Apareceu no vazio de quem aprendeu a se anestesiar para não sentir o que dói, e descobriu que a mesma anestesia bloqueia o que alegra. Apareceu na positividade tóxica que pede sorriso quando o que se sente é outra coisa, e que produz o dobro do sofrimento que tentava evitar. Apareceu no luto de qualquer perda que não recebeu o espaço que merecia, empurrado para um lugar onde ficou sem passagem e começou a aparecer em outros registros.

Em todos esses casos, o problema central não foi o presente em si. Foi a relação com o presente. A estratégia de não estar nele.

E o custo dessa estratégia foi sempre o mesmo: a vida que acontecia enquanto a atenção estava em outro lugar. A conversa que não teve contato real. A decisão tomada no piloto automático. A relação que foi se esvaziando porque nenhuma das duas pessoas estava de fato nela. O corpo que falava e não era ouvido até gritar. O luto que foi empurrado e voltou disfarçado de outra coisa.


A Terapia de Aceitação e Compromisso tem uma formulação que resume o que esses artigos tentaram construir. O objetivo definitivo do trabalho clínico, nas palavras de Hayes, Strosahl e Wilson, é levar a pessoa a passar mais tempo em contato com as consequências positivas de suas ações imediatamente no presente, como parte de um caminho na vida que seja valorizado.

A formulação parece simples. A execução não é.

Passar mais tempo no presente exige desfazer os padrões que afastam do presente: a fusão com pensamentos sobre o passado ou o futuro, a esquiva das experiências internas que o presente contém, o apego a uma versão de si mesmo que não inclui o que está acontecendo agora. Exige o que Tiago Ferreira nomeia com uma palavra que apareceu repetidamente ao longo deste bloco: coragem.

Não técnica. Não método. Não os dez minutos diários de meditação. Coragem para estar genuinamente ancorado no momento presente da relação, da escolha, da experiência, mesmo quando esse momento contém algo que você preferiria não sentir.


Ferreira articula uma distinção que muda o enquadramento da questão inteira: valores são diferentes de objetivos.

Objetivos são pontuais e voltados para o futuro. Você os alcança ou não os alcança, e depois precisa de um próximo objetivo. Valores são abrangentes e vivenciados no aqui e agora. Se "cultivar conexão genuína com as pessoas que importam" é um valor, ele pode ser vivido hoje, nesta conversa, neste almoço, nesta mensagem respondida com atenção real. Não depende do casamento perfeito, da reconciliação com o pai, da chegada de uma fase melhor. Depende de você escolher estar presente agora, mesmo que agora seja imperfeito, mesmo que agora seja doloroso, mesmo que agora não seja o que você queria que fosse.

Isso reposiciona completamente o que significa viver bem. Não é chegar num estado onde o presente é fácil o suficiente para ser habitado. É desenvolver a capacidade de habitar o presente que existe, inclusive quando ele é difícil.


Hayes e colaboradores descrevem um caso extremo que ilumina esse ponto com clareza difícil de ignorar.

Victor Frankl estava num campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Não sabia se a esposa estava viva. Não sabia se sairia dali. O presente que tinha era, por qualquer medida razoável, insuportável. E ainda assim ele fez uma escolha: decidiu que o amor por ela era algo que valia a pena preservar, que tornava o sofrimento suportável, que dava ao presente imediato uma direção que ia além das circunstâncias imediatas.

Cada vez que ele redirecionava sua atenção para essa imagem, para esse compromisso, ele fazia o que a ACT chama de ação comprometida: o comportamento momento a momento de escolher agir em consistência com o que mais profundamente importa, independentemente do que o contexto externo oferece.

Frankl não escolheu o presente que tinha. Escolheu o que fazer com ele.

No cotidiano brasileiro, esse nível de adversidade é raro. Mas a estrutura da escolha é a mesma em contextos infinitamente mais ordinários: o casamento que passa por uma crise e que você decide habitar em vez de abandonar emocionalmente. O trabalho que está difícil e que você decide enfrentar com presença em vez de atravessar no automático. A conversa com o filho adolescente que é desconfortável e que você decide ter de verdade em vez de gerenciar à distância. E essa distinção, entre aceitar passivamente o que está acontecendo e escolher ativamente como se relacionar com o que está acontecendo, é o coração do que a Flexibilidade Psicológica propõe.


Há uma ironia que Ferreira nomeia e que fecha este bloco de forma adequada: o desafio da Flexibilidade Psicológica é o desafio de amar.

Para amar alguém, é necessário estar conectado a quem o outro é e às suas necessidades. Isso só é possível se você está presente, e não controlado pela necessidade de fugir do desconforto ou perdido nos seus autoconceitos, ruminações e preocupações futuras. Um pai que não tem Flexibilidade Psicológica não se relaciona com o filho. Relaciona-se com seus pensamentos sobre como o filho deveria ser. Um terapeuta que não tem Flexibilidade Psicológica não se conecta com o paciente. Conecta-se com suas crenças sobre o que um terapeuta deveria fazer.

A presença real, o contato genuíno com o que está acontecendo aqui e agora, é a condição de qualquer relação que valha esse nome. E relação, no sentido mais amplo, inclui a relação consigo mesmo.

É isso que a virada de Bruce Wayne, quando acontece, representa. Não a cura da dor. Não o esquecimento do que foi perdido. A escolha de estar presente para a vida que ainda é possível, mesmo carregando o peso da que foi interrompida. Chorar e depois almoçar. Sentir a saudade e continuar existindo. Carregar a ausência sem ser definido por ela.


Ferreira usa uma imagem que apareceu no Artigo 19 e que vale revisitar aqui, no encerramento: a diferença entre a luta e a dança. Na luta, dois corpos se opõem. Na dança, dois corpos se encontram. O contato com o momento presente é menos como uma luta contra o que está acontecendo e mais como uma dança com ele: você não precisa controlar cada movimento, mas precisa estar suficientemente presente para sentir o que o momento pede e responder a partir disso.

Esse é o ponto de chegada do Bloco 3. Não um estado de equilíbrio perfeito. Não a ausência de dificuldade. A capacidade de encontrar o presente que existe, com tudo que ele contém, e de estar nele de forma suficientemente inteira para que a vida que está disponível seja de fato vivida.

Este bloco começou com o corpo falando antes da mente e termina com a mesma ideia reformulada: estar presente é um ato que envolve o corpo inteiro, a história inteira, a dor inteira. Não é um estado de leveza. É uma escolha de contato.

O presente difícil não precisa ser resolvido para ser habitado. Precisa ser encontrado.


O que este bloco pode e não pode fazer

Este artigo encerra um bloco de oito textos sobre presença, corpo, emoção e luto. O que esses artigos podem fazer é oferecer um vocabulário: nomear processos que acontecem de qualquer forma, com ou sem nome. Ruminação, anestesia emocional, positividade tóxica, luto evitado, divagação mental: todos funcionam melhor no escuro. Nomeados, tornam-se algo que pode ser examinado.

O que eles não podem fazer é substituir o trabalho que acontece numa relação terapêutica ao longo do tempo. Leitura informa. Psicoterapia transforma. São processos diferentes, e o segundo exige o primeiro ingrediente que este bloco inteiro tentou descrever: a presença de duas pessoas no mesmo presente, mesmo quando esse presente é difícil.

Se algum artigo deste bloco tocou em algo que você reconheceu como seu, essa é uma boa razão para dar o próximo passo.


Este artigo encerra o Bloco 3 da série Mente em Evidência. Para rever o percurso: Quando o Corpo Fala Antes da Mente (artigo 20), Como Lidar Com o Luto (artigo 23), e o início do bloco em O Que a Ansiedade Está Tentando Te Dizer (artigo 17).


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Referências

FERREIRA, T. Construindo Flexibilidade Psicológica: o método das narrativas funcionais. São Paulo: NDD Media, 2023.

FRANKL, V. E. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 1991.

HAYES, S. C.; STROSAHL, K.; WILSON, K. G. Terapia de Aceitação e Compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

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