A História Que Você Conta Sobre as Pessoas É a Razão Pela Qual Você Se Sente Só
A História Que Você Conta Sobre as Pessoas É a Razão Pela Qual Você Se Sente Só
Por Gabriel Matos | Mente em Evidência
Você vai a uma festa, ou a um evento de trabalho, ou a qualquer situação social com gente que não conhece bem. Antes de chegar, já aconteceu alguma coisa na sua cabeça. Você já tomou uma decisão sobre como vai ser: as pessoas vão estar nos próprios grupos, vai ser difícil entrar em conversa, ninguém vai ter muito interesse no que você tem a dizer. Não é que você pense isso de forma deliberada. É mais como um cenário que se monta automaticamente, antes mesmo de você cruzar a porta.
E então você chega. E o cenário que você trouxe na cabeça organiza tudo que você percebe. As pessoas que não vêm até você confirmam que o ambiente é fechado. O silêncio de alguém que está pensando em outra coisa confirma que você não é interessante o suficiente. A conversa que termina antes do que você gostaria confirma que a conexão não estava disponível para você ali.
Você sai da festa sentindo que estava certo. O problema é que você talvez não estivesse.
Dois campi dentro de um só
Em 2025, o psicólogo Jamil Zaki e sua equipe da Universidade de Stanford publicaram um estudo no capítulo 5 do World Happiness Report que revelou algo perturbador sobre como as pessoas constroem a imagem dos outros ao seu redor.
Os pesquisadores entrevistaram milhares de estudantes de Stanford em duas dimensões: como cada estudante descrevia a si mesmo e como estimava que o estudante médio da universidade se comportaria em diferentes situações. Os resultados mostraram o que os autores chamaram de dois campi completamente diferentes existindo no mesmo lugar.
O primeiro Stanford era o das pessoas reais. Noventa e seis por cento dos estudantes afirmaram que agiriam com empatia para ajudar um colega que estivesse passando mal. Quase noventa por cento disseram que gostariam de fazer amizade com pessoas que ainda não conheciam. As pessoas reais eram, nos dados, calorosas, abertas e dispostas à conexão.
O segundo Stanford existia apenas na mente dos estudantes. Quando perguntados sobre o estudante médio ao redor, esses mesmos jovens estimaram que apenas 87% agiriam com empatia numa situação difícil. Essa diferença de nove pontos percentuais entre a realidade e a percepção foi chamada pelos pesquisadores de "empathy perception gap", a lacuna de percepção empática.
As consequências dessa lacuna foram profundas: estudantes que percebiam os colegas como menos empáticos e solidários eram menos propensos a tomar riscos sociais como iniciar conversas, compartilhar dificuldades pessoais ou pedir ajuda — comportamentos que são essenciais para construir relacionamentos com significado.
Em outras palavras: a imagem mental que uma pessoa carrega dos outros ao redor determina o comportamento social dela. E quando essa imagem está errada para baixo, ela produz isolamento real num ambiente que, nos dados, era genuinamente acolhedor.
O que os pesquisadores fizeram para mudar isso
A equipe de Zaki não parou na observação. Eles intervieram. Em alguns dormitórios, colocaram cartazes destacando dados reais sobre o quanto os estudantes eram amigáveis e calorosos. Também encorajaram os estudantes a arriscar nas conexões com os outros.
O resultado foi mensurável. Os estudantes que receberam a intervenção passaram a subestimar menos os colegas e a tomar mais iniciativas sociais. Não porque as pessoas ao redor mudaram. Porque a imagem mental que eles carregavam sobre essas pessoas foi corrigida.
Isso é um dado com implicações que vão muito além dos dormitórios de Stanford. Se a percepção equivocada sobre os outros produz isolamento real, e se é possível corrigir essa percepção com informação concreta, então uma parte significativa da solidão contemporânea não é inevitável. É resultado de uma história que a mente conta e que não corresponde ao que está disponível na realidade.
A mente como narradora de histórias
A Terapia de Aceitação e Compromisso tem um nome para o fenômeno que o estudo de Stanford mapeou empiricamente: fusão cognitiva.
Fusão cognitiva é o processo pelo qual um pensamento passa a funcionar como uma realidade, e não como um pensamento. Quando você está fundido com a ideia de que "as pessoas não têm interesse genuíno nos outros", você não verifica se isso é verdade: você vive dentro dessa afirmação como se ela descrevesse o mundo com precisão. A afirmação deixa de ser uma interpretação e passa a ser o filtro através do qual toda experiência social é processada.
O problema com a fusão não é que os pensamentos sejam necessariamente falsos. É que eles são tratados como fatos sem que passem por nenhum processo de verificação. A mente humana é uma narradora incansável. Ela produz histórias sobre tudo, incluindo sobre as pessoas ao redor, sobre as intenções delas, sobre o que elas pensam de você, sobre o quanto você vai ou não vai ser bem recebido. Essas histórias têm uma função adaptativa: antecipam ameaças sociais antes que elas se concretizem, o que, num contexto evolutivo distante, era útil.
No contexto de uma festa, de um ambiente de trabalho, de um aplicativo de relacionamentos, essas mesmas histórias produzem um custo considerável. Elas são imprecisas com a frequência que o estudo de Stanford documentou, e as imprecisões têm consequências diretas sobre o quanto de conexão a pessoa consegue construir.
Desfusão não é otimismo forçado
A operação inversa da fusão cognitiva é o que a ACT chama de desfusão. E é importante deixar claro o que ela não é, porque o equívoco é comum.
Desfusão não é substituir um pensamento negativo por um positivo. Não é se dizer "as pessoas são boas" quando você está convicto de que não são. Não é negar a experiência que você tem, nem forçar uma perspectiva que não é genuína. Esse tipo de manobra, que alguns chamam de pensamento positivo, não tem suporte empírico consistente para mudança duradoura de comportamento, e a ACT não opera assim.
Desfusão é perceber que um pensamento é um pensamento. É criar uma distância entre você e o conteúdo mental que está passando pela sua cabeça, de forma que esse conteúdo não comande automaticamente o seu comportamento. A técnica mais simples de desfusão é também a mais poderosa: prefixar o pensamento com uma etiqueta. Em vez de "as pessoas não têm interesse genuíno nos outros", a versão desfundida é "estou tendo o pensamento de que as pessoas não têm interesse genuíno nos outros".
Essa mudança de uma frase para outra parece pequena. Não é. A primeira versão é uma descrição do mundo. A segunda é uma observação de um processo mental. A segunda versão deixa espaço para uma pergunta que a primeira fecha: isso é verdade? Tenho evidências que confirmam ou contradizem essa história?
É exatamente esse espaço que os cartazes de Stanford criaram artificialmente ao mostrar os dados reais sobre os colegas. A intervenção externa produziu o mesmo efeito que a desfusão interna pode produzir: uma abertura entre a história e a realidade que permite ao comportamento tomar uma direção diferente.
O custo acumulado de evitar riscos sociais
O estudo de Stanford nomeou com precisão o mecanismo pelo qual a percepção equivocada dos outros se traduz em isolamento: a evitação de riscos sociais. Não iniciar a conversa. Não pedir ajuda. Não compartilhar algo pessoal. Não estender a mão para alguém que parece interessante.
Cada uma dessas não-ações parece razoável no momento em que acontece. A justificativa está pronta: "não quero parecer inconveniente", "provavelmente a pessoa não quer ser interrompida", "não é o momento certo". Mas quando somadas ao longo de semanas e meses, essas pequenas evitações constroem um repertório de isolamento que a pessoa muitas vezes não consegue rastrear até a origem.
A ACT chama de evitação experiencial o padrão mais amplo do qual a evitação de riscos sociais é uma expressão. A pessoa organiza seu comportamento para não entrar em contato com experiências internas desconfortáveis: a possibilidade de rejeição, o desconforto da vulnerabilidade, a incerteza de não saber como vai ser recebida. O problema é que evitar essas experiências também evita a conexão que poderia existir do outro lado delas.
A pesquisa é bastante clara sobre isso: conexão social profunda exige vulnerabilidade. Não a vulnerabilidade performática de redes sociais, mas a vulnerabilidade real de se apresentar como você é, sem garantia de como vai ser recebido. Isso tem risco. E esse risco, quando a história na cabeça diz que as pessoas não são suficientemente empáticas, parece grande demais para valer a pena.
O estudo de Stanford mostrou que o risco, na realidade, é menor do que parece. As pessoas ao redor são mais abertas, mais empáticas e mais dispostas ao contato do que você provavelmente está estimando agora.
Tomada de perspectiva como habilidade
Além da desfusão, a ACT trabalha com um processo que os pesquisadores chamam de tomada de perspectiva: a capacidade de considerar o ponto de vista de outra pessoa com genuíno interesse, de imaginar como o mundo se apresenta a partir de onde ela está. Não concordar com ela necessariamente, mas entrar em contato com a possibilidade de que a realidade dela é diferente da sua e que essa diferença tem lógica interna.
Essa habilidade tem uma relação direta com os dados do WHR 2025. Quando você consegue considerar que a pessoa quieta na festa pode estar tímida, e não desinteressada, que o colega que não respondeu pode estar sobrecarregado, e não indiferente, que o grupo fechado pode estar inseguro sobre como incluir alguém novo, e não sendo exclusivo, a percepção sobre os outros muda de forma concreta. E quando a percepção muda, o comportamento muda junto.
O próximo artigo desta série vai explorar o dado talvez mais contraintuitivo do WHR 2025: ajudar os outros não apenas beneficia quem é ajudado. Protege, de forma mensurável, quem ajuda. E o mecanismo pelo qual isso acontece tem tudo a ver com a relação que você tem com o seu próprio sofrimento.
Se você se reconheceu na descrição da pessoa que chega a situações sociais com o roteiro já escrito, que evita riscos por antecipação de rejeição, ou que carrega uma imagem dos outros que pode ser mais sombria do que os dados justificam, esse padrão tem nome, tem mecanismo compreendido, e tem abordagem clínica com evidência. Não é um defeito de caráter. É um padrão psicológico que pode ser trabalhado.
QUER CONVERSAR? Se você tem dúvidas sobre psicoterapia, gostaria de entender melhor como funciona ou está considerando iniciar um processo terapêutico ou se quer entender melhor como seus padrões de pensamento estão afetando sua vida e aprender ferramentas para desenvolver mais flexibilidade psicológica? Entre em contato.
📧 E-mail: psi.gabrielmatos@gmail.com 📸 Instagram:@gabriel_matos_ribeiro📚 Currículo Lattes: Acesse aqui💬 Deixe um comentário: Ficou com alguma dúvida? Compartilhe!
Referências: Helliwell, J. F., Layard, R., Sachs, J. D., De Neve, J.-E., Aknin, L. B., & Wang, S. (Eds.). (2025). World Happiness Report 2025. University of Oxford: Wellbeing Research Centre. Zaki, J., & Pei, R. (2025). Connecting with others: How social connections improve the happiness of young adults. In World Happiness Report 2025. University of Oxford: Wellbeing Research Centre. Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2021). Terapia de Aceitação e Compromisso: o processo e a prática da mudança consciente (2ª ed.). Artmed.

Comentários
Postar um comentário